sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O meu amor se foi.

O meu amor se foi e levou consigo o meu chão.
Danem-se os pobres e desamparados, os fracos e oprimidos, danem-se os mutilados e esfomeados.
Hoje o meu amor se foi...
Existe dor maior que a minha?
Pois a dor que sinto, sinto intensa, enquanto a dor dos outros é ausente pra mim.
A dor que não sinto, não é dor, nem sofrimento porque não vem de mim.
Sendo assim não lembro de dor alguma que possa me servir de exemplo.
Simplesmente se foi o meu amor e com isso me tornei tão arrogante e cego que não enxergo o sofrimento alheio, mesmo sendo ele maior ou quase insuportável.
Eu é que necessito de carinho e companhia.
Eu é que não suporto viver sem atenção e cuidado.
Eu é que menosprezo a fome e a injustiça.
Simplesmente porque o meu amor se foi

Os ombros sustentam o mundo

Suzana parou um instante no meio da rua, em meio a tanta escuridão e falou para si mesma:
___O que eu estou fazendo?
E embora caísse um temporal, o céu certamente não ganharia em metros cúbicos dos olhos daquela mulher.
E nem seria de se estranhar que o mesmo coração que acolheria um mundo inteiro, dado  grau da sua bondade, agora transbordaria com as torrentes de pranto vindas dos seus olhos.
Parecia impossível o que os seus olhos haviam visto. No meio da rua, debaixo de chuva forte e sob a débil luz da iluminação pública, Suzana, que já respirava com dificuldades, caiu de joelhos e prostrou suas esperanças no asfalto molhado.
Ofegante e sem forças, o que lhe restou foi chorar...
Chorar como uma criança. Com a mesma pureza da alma.
O mundo agora era um grão de areia e Suzana uma formiga que habitava este mesmo mundo.
Nada e nem ninguém poderia lhe ajudar.
Exceto...
O vento cruel e implacável, suave e invisível transformava pingos d´água em laminas afiadas que rasgavam sua pele. Mas Suzana, alheia a tudo, apenas chorava.
Um raio caiu distante, um relâmpago iluminou o mudo inteiro e um trovão rugiu como uma besta enfurecida.
Por alguns segundos pareceu ser o fim do mundo, mas...
...infelizmente não era.
Morrer seria pouco. Seria necessário morrer mil vezes para se estancar a dor da sua alma.
Outro raio caiu, entretanto nenhum relâmpago iluminou o céu, nenhum trovão bradou a fúria dos Deuses. Só o silêncio a rasgar a madrugada com seu monólogo ensurdecedor.
A chuva agora já diminuíra, a mesma luz débil parecia recolher forças em si mesma para iluminar a iniluminável escuridão do mundo.
Uma mão suave e quente apertou o ombro nu de Suzana.
Sua cabeça girou no eixo e seu corpo torceu numa espiral ascendente.
Seus olhos tremeram e sua boca sorriu...

SOS

Saia de mim,
veneno da alma.
Venha a paz,
venha com calma.

E resida em mim,
eterna morada.
Receba meu calor,
e me ame sem temor.

Aqueça meu frio,
e faça eu dormir.
Depois vá embora,
sem eu nem sentir.