terça-feira, 16 de junho de 2009

Náufrago

Lanço olhares aos estranhos na rua como um náufrago lança garrafas ao mar. Distante de acreditar que a maior distância que pode separar as pessoas é o amor, situo-me à deriva do censo comum. E, como uma nau desgovernada que é atirada para dentro do olho do furacão, me lanço na busca de ventos tranquilos que me levem a um porto seguro. Que me leve a crer no que sinto. O amor encurta as distâncias e trás à tona o melhor de nós.

Certo dia cansado da solidão que os bancos dos coletivos nos dão, aventurei-me atravessar o corredor para ter com aquela estranha, coisas que meu corpo ansiava. Fui desprovido de sonhos pré-vistos pelos mesmos olhos que esquadrinhavam todos os traços daquele adorável ser. Tão longa era a distância (apesar de serem simples centímetros) que nesse ínterim fui acometido de diversos sentimentos, alguns bons outros ruins. E se ela for casada - pensei - e se for uma mulher que não teve sorte na vida, por isso se tornou alguém áspera, fria e sem amor. Não, dessa vez eu não ficaria vendo a vida passar diante dos meus olhos. Fosse o que fosse, eu descobriria o seu nome . Pedi licença, mas ela nem respondeu. O frio voltou a correr pela espinha, ela era bonita demais e eu igualmente tímido, mas já era hora de por um fim a esse lance de solidão.
Não terei lembranças do não feito, não realizado. Já tinha frustrações demais pra lidar e como já dizia o poeta "O mundo é de quem o conquista e não de quem acha que pode fazê-lo. Me preparei psicologicamente, respirei fundo, fechei os olhos e...
Quando abri, percebi que ela olhava para mim.
__Tudo bem? - ela me perguntou. Meio sem jeito, respondi:
__S-Sim! - foi o que saiu da minha boca. Não era exatamente uma frase oportunista, dessas de função fática usadas para estabelecer contato, mas servia. Dai em diante a conversa que se seguiu pareceu ter sido lapidada por anjos, numa perfeita conjunção dos astros. Tudo fluiu tão bem que ao final de uma certa frase que eu nem me lembro qual (e sempre acontece assim ) sem avisar, sem mais nem menos um beijo rolou.
Depois que dei meu numero de telefone e ela se despediu, recostei-me então no banco e lembrei da distância percorrida, agora tão curta e banal, sem pressa de voltar à realidade adormeci...
Acordei no ponto final sentindo ainda seu gosto na boca e embora pudesse jurar que tudo fosse real, vivo ainda hoje na esperança que ela me ligue.

Se é mesmo o amor que separa as pessoas, então apagarei de vez a marca de S.O.S. na areia da minha vida para escrever em seu lugar:
Náufrago